para começar o dia, retomo o tema que quase me tirou o sono: estou indecisa. alheia a este tipo de sensação, que é rara em mim porque normalmente decido o que quero facilmente, deparo-me com um conflito interior, também ele raro, que é se devo resignar-me sem provocar crise ou se devo fazer o que me vai na alma, no coração e na razão, pensando apenas em mim.
o problema é não estar sozinha. acorrentada, para o bem e para o mal, é como eu me sinto.
ser adulta, responsável, ponderada, organizada, económica, criativa, carinhosa, sedutora, inteligente, culta, atenta, corajosa, maternal, altruísta, bonita, elegante, aventureira, desenrrascada, incansável... não sei o que faltaria para a perfeição mas, não tenho a menor dúvida que de todos estes atributos me faltam a maior parte. mas parece que são sempre exigidos, um aqui e agora, outro ali depois. não sou perfeita nem quero ser. li uma vez, há uns anos que "não temos tempo para sermos nós próprios, temos apenas tempo para sermos felizes". não me lembro do autor mas é alguém muito conhecido (esta falta de memória é característica). o que eu acho que ele quer dizer é assustador. eu sei que todos nós temos que abdicar de parte das nossas vontades e motivações, mas para ser feliz é preciso deixar para trás o que houver de mais genuíno em nós? é preciso parecer quase perfeito aos olhos dos outros? então seremos apenas quase felizes.
eu sou quase feliz. e alguns perguntariam mas, não tens tudo para ser feliz? quase tudo. o amanhã existe e eu não sei se existo amanhã. há noites que não são estreladas. há árvores que não dão frutos nem flores. há corpos que não se exprimem. há gente mesmo infeliz. há pessoas que eu não poderei nunca ajudar. há filhos meus que eu não tive. os que tenho são maravilhosos mas eu não sei se sou uma mãe maravilhosa. talvez quase maravilhosa, para eles.
eu sei o que devia fazer mas também sei que não devo. "nada é mais fecundo do que o sacrifício", frase de Santa Teresinha. o que eu não sei é qual é o sacrifício maior. se não fazer o que quero ou se fazer o que quero e arcar com as consequências. o mais ridículo é que eu nem sei bem quais seriam as consequências ou se as haveria. o mais triste é eu não ter coragem para falar. estou cansada de ser agredida e não quero correr riscos. talvez só tenha mesmo tempo para ser feliz e para isso tenha mesmo que ser eu própria.
bela conclusão. voltamos ao princípio?
quarta-feira, 30 de maio de 2007
quarta-feira, 23 de maio de 2007
O Casarão
quando eu era pequenina, devia ter aí os meus 4 anos, comecei a ver telenovelas brasileiras. Lembro-me que, na altura em que passava "O Casarão", resolvi que queria ser milionária quando fosse grande (isto depois de ter ponderado ser engraxadora de sapatos ou artista de circo - talvez a escolha mais acertada). Milionária de quê? Milhões de bens? Milhões de coisas? Milhões de dinheiro? Não. Milhões de amor. Sim, porque já nessa altura nos era incutida a ideia de que as pessoas "bem sucedidas" eram as mais desejadas e amadas.
Passados 30 anos, reflicto sobre isto incidindo no significado da palavra "sucedido"... alguém nos sucede? sucedemos quem? pode significar submeter-se, vir depois de, tomar o lugar de... não podemos ingnorar que suceder tem laços etimológicos com ceder. Ora, parece-me quase nítido que ser "bem sucedido" implica ceder aos padrões instituídos do que é sucesso (?), vir depois de e fazer igual ou melhor... prestar provas e passar nos testes.
Reconheço agora que, se é um facto que não sou milionária, não tendo concretizado o meu ideal de criança, sou muito menos bem sucedida porque dificilmente cedo para me poder encaixar nos moldes que me foram desenhados. Eu sou a escultora do meu ser, para o bem e para o mal. É difícil que nos amem na nossa forma mais pura, com golpes toscos, disformes, cuja beleza apenas alguns poderão ver, porque o amor é cego. Pode considerar-se mesmo um luxo. Mas vale a pena tentar porque a lucidez e a grandeza de alguém que nos ame assim pode esculpir-nos um pouco para melhor.
Quando a escultura estiver finalmente pronta, há quem diga que esta se dilui e volta com outras formas ao universo que conhecemos. Gosto de acreditar que é assim.
Para a próxima quero ser uma laranjeira, pode ser?
Passados 30 anos, reflicto sobre isto incidindo no significado da palavra "sucedido"... alguém nos sucede? sucedemos quem? pode significar submeter-se, vir depois de, tomar o lugar de... não podemos ingnorar que suceder tem laços etimológicos com ceder. Ora, parece-me quase nítido que ser "bem sucedido" implica ceder aos padrões instituídos do que é sucesso (?), vir depois de e fazer igual ou melhor... prestar provas e passar nos testes.
Reconheço agora que, se é um facto que não sou milionária, não tendo concretizado o meu ideal de criança, sou muito menos bem sucedida porque dificilmente cedo para me poder encaixar nos moldes que me foram desenhados. Eu sou a escultora do meu ser, para o bem e para o mal. É difícil que nos amem na nossa forma mais pura, com golpes toscos, disformes, cuja beleza apenas alguns poderão ver, porque o amor é cego. Pode considerar-se mesmo um luxo. Mas vale a pena tentar porque a lucidez e a grandeza de alguém que nos ame assim pode esculpir-nos um pouco para melhor.
Quando a escultura estiver finalmente pronta, há quem diga que esta se dilui e volta com outras formas ao universo que conhecemos. Gosto de acreditar que é assim.
Para a próxima quero ser uma laranjeira, pode ser?
terça-feira, 22 de maio de 2007
mundo interno
finalmente deixei de resistir à tentação de criar o meu própio blog...
porque sinto necessidade de partilhar e perceber melhor as angústias do adulto do século 21 e consequntemente da geração que estamos a ensinar a crescer.
tenho dúvidas de que sejamos capazes de fazer melhores adultos mas simultaneamente tenho a certeza de que a matéria prima é da melhor qualidade e de que o mundo (interno de cada um/a e externo de todos/as) está em mudança, inevitavelmente, pela procura de novas formas de vida e dos tão afamados valores sentidos em perda.
mas afinal, de que valores falamos? porque não lhes damos outros nomes, como dúvidas/certezas mais consistentes de cada ser...
tenho como objectivo recolher neste espaço virtual e impessoal as opiniões de adultos/as inconformados/as, exigentes, optimistas, futuristas e que sintam que há um mundo nosso, como que uma célula do universo que podemos e devemos melhorar constantemente.
sinto-me inquieta.
hoje pergunto: qual era a sua brincadeira preferida na infância?
porque sinto necessidade de partilhar e perceber melhor as angústias do adulto do século 21 e consequntemente da geração que estamos a ensinar a crescer.
tenho dúvidas de que sejamos capazes de fazer melhores adultos mas simultaneamente tenho a certeza de que a matéria prima é da melhor qualidade e de que o mundo (interno de cada um/a e externo de todos/as) está em mudança, inevitavelmente, pela procura de novas formas de vida e dos tão afamados valores sentidos em perda.
mas afinal, de que valores falamos? porque não lhes damos outros nomes, como dúvidas/certezas mais consistentes de cada ser...
tenho como objectivo recolher neste espaço virtual e impessoal as opiniões de adultos/as inconformados/as, exigentes, optimistas, futuristas e que sintam que há um mundo nosso, como que uma célula do universo que podemos e devemos melhorar constantemente.
sinto-me inquieta.
hoje pergunto: qual era a sua brincadeira preferida na infância?
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